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[Finalizo] Ágape III

 Dos vários amores que os gregos souberam distinguir ; eros, o desejo; philia, a amizade; storge, o afeto familiar, o ágape é o mais difícil de explicar e o mais fácil de reconhecer quando aparece. É o amor que não depende do mérito do outro nem do meu humor. Não é um sentimento que me acontece, é uma decisão que tomo: querer o bem do outro mesmo quando ele não me retribui, mesmo quando me custa, mesmo no silêncio onde ninguém vê. É o amor que se prova pelo que faz, e não pelo que declara. Vejo agora porque é que o ágape é a Palavra Perdida. Não a perdemos por descuido, perdemo-la porque ela não nos vem de forma natural. É mais fácil desejar, simpatizar, pertencer.  Amar sem condição é contra a corrente, exige esvaziamento, pede aquele silêncio interior onde o eu se cala para que o outro caiba. Por isso a Palavra se perde tantas vezes em cada um de nós. E por isso reencontrá-la é, de facto, reencontrar a versão mais verdadeira de quem somos ♡ aquela que ama sem exigir prova. O...
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[Continuação] Ágape II

 Chego assim à segunda semente; as palavras constroem mundos, mas é o silêncio que os sustém.Passei muito tempo a acreditar que era nas palavras que tudo acontecia, que dizer era existir, que nomear era possuir, que aquilo que não fosse articulado se perderia. E é verdade que as palavras constroem: ergui relações inteiras com frases e derrubei-as também com elas. Mas reparei, com a idade, que as palavras que mais me sustentam não são as que digo. São as que fico a guardar. O amor mais fundo que conheço quase nunca precisou de ser dito em voz alta; vivia no espaço entre as conversas, na pausa antes da resposta, na presença que não exige justificação.O silêncio não é a ausência de palavra. É o chão onde a palavra assenta. Uma casa não se faz só de paredes, faz-se sobretudo do vazio que as paredes abraçam, do ar que se respira lá dentro. Da mesma forma, a Palavra Perdida não se reencontra à força de falar mais. Reencontra-se quando se faz silêncio suficiente para a ouvir murmurar por ...

Ágape

Há frases que me chegam como sementes.  Não sei de onde vêm, mas reconheço que pedem terra. Foram duas, desta vez, e demoraram a deixar-me em paz.  A primeira dizia que quem encontra a "Palavra Perdida" encontrou a sua verdadeira versão. A segunda, que me chegou, sussurrava que as palavras constroem mundos, mas é o silêncio que os sustém. Demorei a perceber que não eram duas sementes, mas uma só, partida ao meio.  E que o nome dessa unidade, para mim, é uma palavra antiga:  Ágape. Quero escrever sobre isto não como quem ensina, mas como quem desfaz um nó devagar, à luz da janela.  Convido-te a desfazê-lo comigo. A lenda de uma palavra que se perdeu. Em várias tradições da .:  às escolas de mistérios do antigo Egito, da Cabala hebraica ao gnosticismo e repete-se uma mesma história sob roupagens diferentes.  Diz-se que existiu uma Palavra de valor incalculável, conhecida por poucos, e que essa Palavra se perdeu. No seu lugar ficou um substituto, uma apro...

Morre e acorda

 No Eco de mim e procura por significados mais profundos, deparei-me com a riqueza do simbolismo do crânio, especialmente nas tradições... Longe de ser apenas um presságio sombrio, este símbolo, muitas vezes adornado com ossos cruzados, mostra-se um portal para uma compreensão mais elevada da existência.O crânio, para mim, não é apenas o "memento mori" que nos recorda a inevitabilidade da morte física. É, acima de tudo, um convite à iniciação espiritual, uma transição que nos impele a transcender o plano material em direção a um conhecimento metafísico superior, a Gnosis. É como se a própria forma do crânio, despojada de carne, me convidasse a olhar para além do visível, para a essência que reside no interior.Associo-o, de imediato, ao Gólgota, a Cidade da Caveira, um lugar de sacrifício e revelação. E, neste contexto, o crânio surge como o guardião de um segredo ancestral, a verdadeira natureza do Santo Graal. Não um cálice físico, mas talvez a própria sabedoria interior, a ...

A Era da Heteronímia

Quando Fernando Pessoa estilhaçou a sua alma em dezenas de vozes, criou os seus célebres heterónimos, o mundo olhou para ele como um génio solitário, um arquiteto de labirintos interiores.  Hoje, porém, a genialidade de Pessoa tornou-se a nossa condição quotidiana. Vivemos, todos nós, uma era de profunda e inevitável heteronímia. A razão dita-nos que esta fragmentação é uma exigência da modernidade. No palco digital, somos forçados a desdobrar a nossa identidade para sobreviver e pertencer.  Há o "eu" imaculado e profissional do LinkedIn, polido pelas exigências do mercado; o "eu" estético e eufórico do Instagram, curador de uma felicidade editada; e o "eu" reativo e cru do X, que grita no meio do ruído. Cada plataforma exige uma máscara, um tom de voz, uma biografia distinta. Tal como Alberto Caeiro, Ricardo Reis ou Álvaro de Campos, estas nossas personas têm vidas próprias, círculos sociais distintos e até formas diferentes de sentir o mundo.  Racionalme...

Ergueram em Salomão

 Ah, como eu me perco neste selo... Deixa-me contar-te o que ele faz arder dentro de mim. Quando os meus olhos pousam sobre os dois cavaleiros que partilham um só cavalo, sinto um arrepio percorrer-me a espinha. O mundo apressado vê pobreza, vê dois homens humildes obrigados a dividir uma montada. Mas eu — eu vejo o universo a respirar. Vejo a eternidade a galopar diante de mim, e o coração acelera-me no peito como se reconhecesse, num lampejo, algo que a minha alma sempre soube e a minha mente teimou em esquecer. Porque aqueles dois cavaleiros, meu querido, não são homens. São forças. São os dois pilares do Templo que se ergueram em Salomão e que ainda hoje se erguem dentro de cada um de nós. À direita, o branco, luminoso, doce como a misericórdia que perdoa antes mesmo de sermos dignos; o sopro masculino, a mão que afaga. À esquerda, o negro, severo, afiado como o rigor que nos corta para nos curar; o ventre feminino, o silêncio que julga e que gera. E eu tremo ao perceber que el...