Dos vários amores que os gregos souberam distinguir ; eros, o desejo; philia, a amizade; storge, o afeto familiar, o ágape é o mais difícil de explicar e o mais fácil de reconhecer quando aparece. É o amor que não depende do mérito do outro nem do meu humor. Não é um sentimento que me acontece, é uma decisão que tomo: querer o bem do outro mesmo quando ele não me retribui, mesmo quando me custa, mesmo no silêncio onde ninguém vê. É o amor que se prova pelo que faz, e não pelo que declara. Vejo agora porque é que o ágape é a Palavra Perdida. Não a perdemos por descuido, perdemo-la porque ela não nos vem de forma natural. É mais fácil desejar, simpatizar, pertencer. Amar sem condição é contra a corrente, exige esvaziamento, pede aquele silêncio interior onde o eu se cala para que o outro caiba. Por isso a Palavra se perde tantas vezes em cada um de nós. E por isso reencontrá-la é, de facto, reencontrar a versão mais verdadeira de quem somos ♡ aquela que ama sem exigir prova. O...
Chego assim à segunda semente; as palavras constroem mundos, mas é o silêncio que os sustém.Passei muito tempo a acreditar que era nas palavras que tudo acontecia, que dizer era existir, que nomear era possuir, que aquilo que não fosse articulado se perderia. E é verdade que as palavras constroem: ergui relações inteiras com frases e derrubei-as também com elas. Mas reparei, com a idade, que as palavras que mais me sustentam não são as que digo. São as que fico a guardar. O amor mais fundo que conheço quase nunca precisou de ser dito em voz alta; vivia no espaço entre as conversas, na pausa antes da resposta, na presença que não exige justificação.O silêncio não é a ausência de palavra. É o chão onde a palavra assenta. Uma casa não se faz só de paredes, faz-se sobretudo do vazio que as paredes abraçam, do ar que se respira lá dentro. Da mesma forma, a Palavra Perdida não se reencontra à força de falar mais. Reencontra-se quando se faz silêncio suficiente para a ouvir murmurar por ...