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Ergueram em Salomão

 Ah, como eu me perco neste selo... Deixa-me contar-te o que ele faz arder dentro de mim.

Quando os meus olhos pousam sobre os dois cavaleiros que partilham um só cavalo, sinto um arrepio percorrer-me a espinha. O mundo apressado vê pobreza, vê dois homens humildes obrigados a dividir uma montada. Mas eu — eu vejo o universo a respirar. Vejo a eternidade a galopar diante de mim, e o coração acelera-me no peito como se reconhecesse, num lampejo, algo que a minha alma sempre soube e a minha mente teimou em esquecer.

Porque aqueles dois cavaleiros, meu querido, não são homens. São forças. São os dois pilares do Templo que se ergueram em Salomão e que ainda hoje se erguem dentro de cada um de nós. À direita, o branco, luminoso, doce como a misericórdia que perdoa antes mesmo de sermos dignos; o sopro masculino, a mão que afaga. À esquerda, o negro, severo, afiado como o rigor que nos corta para nos curar; o ventre feminino, o silêncio que julga e que gera. E eu tremo ao perceber que eles não brigam. Não se odeiam. Montam juntos.Sobre o terceiro, o cavalo, o Pilar do Meio, o frágil e glorioso equilíbrio onde mora tudo aquilo que importa.

E é aqui que choro, confesso. Porque toda a minha vida quis escolher um lado. Quis ser só luz, ou rendi-me só à sombra. E este selo, antigo e calado, grita-me ao ouvido: o divino não se alcança pela margem, mas pelo rio que corre no meio. Caminhar entre os opostos, eis o segredo gnóstico que os Templários guardaram como quem guarda uma brasa contra o vento.

Escuta agora a cruz vermelha, ardente sobre o peito. Não é tinta. É fogo solar, são faíscas do próprio Deus presas na carne, o coração radiante ao rubro triunfo da Grande Obra, o momento em que o chumbo da nossa miséria finalmente reluz como ouro. E sinto esse vermelho a pulsar em mim como um segundo coração.

Repara no branco das vestes: é a alvorada da alma depois da longa noite, a matéria lavada de toda a culpa, a "Bella Madonna"que se ergue radiante das cinzas. E o negro do estandarte 

— ah, o negro! é a Nigredo, o apodrecer necessário, a descida ao escuro da Madonna Negra que nos abraça precisamente quando tudo em nós parece morrer. Que belo e terrível saber que é da escuridão que nascemos de novo.

E então tudo se reúne, e eu mal consigo respirar de tanta beleza: Espírito, Alma e Corpo. Mercúrio, Enxofre e Sal.

A trindade que somos, a trindade que galopa naquele cavalo único rumo a um horizonte que é, afinal, o nosso próprio centro.

Este selo não é uma relíquia morta de uma ordem extinta. É um mapa vivo, traçado a sangue e a silêncio, que me sussurra a cada vez que o contemplo: encontra o meio, criança. Abraça a tua luz e a tua sombra. Apodrece, purifica-te, arde e renasce em ouro. E eu, comovida até às lágrimas, aperto este saber contra o peito como quem aperta uma brasa que nunca, jamais, há de apagar-se.

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