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Ágape

Há frases que me chegam como sementes.

 Não sei de onde vêm, mas reconheço que pedem terra. Foram duas, desta vez, e demoraram a deixar-me em paz. 
A primeira dizia que quem encontra a "Palavra Perdida" encontrou a sua verdadeira versão. A segunda, que me chegou, sussurrava que as palavras constroem mundos, mas é o silêncio que os sustém. Demorei a perceber que não eram duas sementes, mas uma só, partida ao meio.
 E que o nome dessa unidade, para mim, é uma palavra antiga: 
Ágape.

Quero escrever sobre isto não como quem ensina, mas como quem desfaz um nó devagar, à luz da janela. 
Convido-te a desfazê-lo comigo.

A lenda de uma palavra que se perdeu. Em várias tradições da .:  às escolas de mistérios do antigo Egito, da Cabala hebraica ao gnosticismo e repete-se uma mesma história sob roupagens diferentes. 
Diz-se que existiu uma Palavra de valor incalculável, conhecida por poucos, e que essa Palavra se perdeu. No seu lugar ficou um substituto, uma aproximação, uma sombra. E ficou também a promessa de que, um dia, aquilo que se perdeu há de ser reencontrado.
 O que sempre me tocou nesta lenda não é o segredo em si, mas a estrutura que ela desenha. Os antigos não estavam, creio eu, à procura de uma senha mágica de quatro consoantes. O sacerdócio de Menphis dizia que o deus Ptah criara o universo pensando-o e depois pronunciando-o; o Evangelho de João abre com

 "No princípio era o Verbo". 

Em ambos os casos, a palavra não é um rótulo colado às coisas, é a força que as faz existir. Perder essa Palavra não significava, portanto, esquecer um termo. Significava perder o contacto com aquilo que nos cria por dentro.
É neste momento que a lenda deixa de ser folclore e se torna espelho. Porque eu também tenho a minha Palavra Perdida. Tu também tens. É aquele nome verdadeiro que tínhamos em criança, antes de aprendermos a responder pelos nomes que os outros nos deram. A tradição, na sua leitura mais íntima, sempre interpretou esta busca como o percurso pessoal de cada um, do primeiro tropeço na escuridão até ao dia em que se chega, enfim, a casa. 
 Não é uma viagem para fora. É uma escavação para dentro. A versão verdadeira não se inventa, descobre-se.
 Reparo numa coisa que me parece decisiva. A frase não diz que quem cria a sua melhor versão a encontra. Diz que quem encontra a Palavra encontrou a sua verdadeira versão. Há uma diferença enorme entre estes dois verbos, e é nessa diferença que me detenho.

Vivemos rodeados de um vocabulário de construção pessoal, melhorar, otimizar, reinventar, tornar-se. Tudo verbos de esforço, de fabrico, de vontade. Não os desprezo também me construí, também me refiz mais vezes do que gostaria de admitir. Mas a lenda da Palavra Perdida aponta para outra coisa, mais humilde e mais radical: a minha versão verdadeira não é um projeto a executar, é uma presença a recordar. Já lá está, guardada, à minha espera, como a palavra que dorme no cofre subterrâneo aguardando que alguém volte a abri-lo.Encontrar-me, então, não é acrescentar. É retirar. É tirar o entulho que se acumulou por cima do que sempre fui. E essa operação, ao contrário do que parece, faz-se sobretudo em silêncio...

[Continuará]

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