Quando Fernando Pessoa estilhaçou a sua alma em dezenas de vozes, criou os seus célebres heterónimos, o mundo olhou para ele como um génio solitário, um arquiteto de labirintos interiores.
Hoje, porém, a genialidade de Pessoa tornou-se a nossa condição quotidiana. Vivemos, todos nós, uma era de profunda e inevitável heteronímia.
A razão dita-nos que esta fragmentação é uma exigência da modernidade. No palco digital, somos forçados a desdobrar a nossa identidade para sobreviver e pertencer.
Há o "eu" imaculado e profissional do LinkedIn, polido pelas exigências do mercado; o "eu" estético e eufórico do Instagram, curador de uma felicidade editada; e o "eu" reativo e cru do X, que grita no meio do ruído. Cada plataforma exige uma máscara, um tom de voz, uma biografia distinta. Tal como Alberto Caeiro, Ricardo Reis ou Álvaro de Campos, estas nossas personas têm vidas próprias, círculos sociais distintos e até formas diferentes de sentir o mundo.
Racionalmente, compreendo que esta é a arquitetura da sociedade contemporânea: uma rede de avatares que nos permite navegar a complexidade do século XXI.
Ainda assim, é na emoção que o peso desta multiplicidade se faz sentir. Há dias em que o silêncio cai sobre os ecrãs e, subitamente, sentimo-nos estrangeiros dentro da nossa própria pele.
Quem somos nós quando ninguém está a olhar?
Quando as notificações cessam e a luz azul se apaga, qual destas vozes é a nossa?
A angústia de não sabermos onde termina a performance e onde começa a verdade é o preço que pagamos por sermos tantos.
Sentimos, por vezes, uma solidão imensa no meio da multidão que habita dentro de nós. É um cansaço invisível, o de ter de sustentar tantas vidas simultâneas, temendo que o nosso "eu" original se tenha perdido algures entre um login e um logout.
Referências
FONSECA, Taisa. Mídia e novas subjetividades: os devires de Fernando Pessoa. Rio de Janeiro: UFRJ, 2005. Disponível em: https://pantheon.ufrj.br/handle/11422/439.[2] BRITO, Bruno Eduardo da Rocha.
Fernando Pessoa: a fragmentação do humano. Revista Lumen, Recife, v. 23, n. 1, 2014. Disponível em: https://fafire.emnuvens.com.br/lumen/article/view/439.[3] PIVOTO, Klenne Maria
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